Mil impressões – Coluna Mensal

UMA ESQUINA DE MINAS PARA O MUNDO E PARA OS QUADRINHOS TAMBÉM


            No final da primeira década dos anos dois mil, a ideia para um novo trabalho em quadrinhos veio de maneira arrebatadora e simplesmente se instalou em minha cabeça na forma “nem sei como, mas vou fazer isso!”. Transpor para as hq’s a história (ou parte dela, pois além de muita gente envolvida, há muitos fatos ocorridos, ou seja, muita coisa para se contar e difícil de colocar tudo em um livro em quadrinhos) dos músicos, compositores, cantores, poetas, gente comum, ligadas ao movimento musical Clube da Esquina, encabeçado por Milton Nascimento e o então jovem Lô Borges que em 1972, pariram uma obra prima da música brasileira e mundial, o disco referido, Clube da Esquina.

Descobri o som dessa turma, ainda pré-adolescente, por volta de 1976, através de discos posteriores ao Clube, lançados naquele período como Geraes do Milton, A página do relâmpago elétrico, um negócio arrebatador que ainda hoje toca lugares de minha alma que é difícil de exprimir em palavras, ah, esse é o título do primeiro disco do Beto Guedes e por fim, o antológico disco do tênis do Lô. Aliada a uma música de melodias um tanto complexas, com arranjos misturando pop, rock, barroco mineiro, jazz e outras sonoridades com uma poesia direta e profunda, esses caras do Clube da Esquina foram meus primeiros gurus espirituais, antes de qualquer outro tipo de contato intelecto espiritual que viria a ter bem mais para frente com caras como Gurdjieff, Ram Dass, Krishnamurti, Chico Xavier, Anne Besant e por aí vai. Como disse, a poesia dos letristas mineiros como Ronaldo Bastos, Fernando Brant e Marcio Borges, vieram antes, se instalaram, semearam coisas, bem num período de descobertas, da sensibilidade se aflorando e, mesmo não compreendendo naquela ocasião, muito do que queriam dizer aquelas letras, aliada a melodias sublimes, sonoras, de sons arrebatadores, o sagrado e o profano davam as mãos e iam dançar nos meus campos do inconsciente. Claro, meu e de tantos e tantos.

E já que naquele período da arrebatadora inspiração de contar um pouco da história desse famoso clube, veio de forma contundente, ocorreu algo que algumas outras vezes já havia acontecido comigo, como se dizia, as pedras vão se encontrando e comigo algumas vezes aconteceu assim. Curiosamente, o fotógrafo Juvenal Pereira, responsável por uma boa parte das imagens que estão no interior do antológico disco, era meu vizinho aqui no bairro da Pompéia, em São Paulo, e frequentávamos uma pequena loja de discos e cd’s antigos aqui do bairro, onde papeávamos muito com o proprietário, aliás, o gasto de conversa sempre foi maior que com a matéria prima da loja, porém, Juvenal e eu,  nunca havíamos nos encontrado lá e foi em uma das conversas com o proprietário que comentei sobre a tal intenção de criar uma hq sobre o Clube, e ele justamente comentou sobre meu ilustre vizinho. Literalmente ele morava muito próximo de mim. Enfim, ponte feita, conheci esse outro grande mineiro, de simplicidade e talento nas mesmas proporções e ficamos amigos de anos e poucas conversas. Curiosamente ao apresentar a ideia para o Juva, como prefere ser chamado, falou-me que o Marcio Borges, grande parceiro de obras primas do Milton como a própria música “Clube da Esquina”, entre tantas outras, estava justamente buscando algum desenhista para levar para os quadrinhos alguns momentos da história de toda a turma, para um projeto que se esboçava que seria o Museu Clube da Esquina. Uma proposta que de início seria virtual, vinculada através de um site ligado ao Museu da Pessoa, para posteriormente virar algo mais real, físico, com local e tudo mais.

Em uma fração de segundos, posso dizer assim, conheci o Marcio, sua mui simpática esposa Claudia e os outros membros desse panteão sagrado da música: Fernando Brant, outro grande parceiro letrista, Beto Guedes, Lô e Telo Borges, Wagner Tiso, Toninho Horta enfim, muitas trocas de informações para colher material para desenvolver essa primeira parte do projeto: inicialmente foram desenvolvidas treze páginas, onde cada uma contava momentos da vida não só do Milton, mas como dos outros, não só histórias de como algumas canções clássicas da música brasileira foram criadas, exemplo “Travessia” música feita por Milton em parceria com Fernando Brant, pedra angular na carreira do cantor e compositor, ou “Manoel, o audaz” histórica canção de Toninho Horta com também letra de Fernando Brant, que fala sobre o icônico jipe de Brant batizado carinhosamente com esse nome próprio. Enfim, depoimentos levantados individualmente que se somaram ao livro Os sonhos não envelhecem do Marcio Borges que foi a bússola para esse projeto. As treze páginas entraram no ar, mas logo em seguida veio a ideia de ampliar esse “horizonte mineiro” e transformar aquelas páginas on-line num livro com mais histórias, inclusive de pessoas como dona Maricota, mãe do clã Borges, por exemplo, “criadora” do termo Clube da Esquina ou da lendária Dona Olímpia, figura mitológica que perambulava pelas ruas de Ouro Preto e que, posteriormente virou tema de uma música de Toninho Horta e Ronaldo Bastos. As páginas se expandiram em histórias reais também que extrapolavam a ideia original de uma página para cada caso, onde a intenção era contar mais que a história de Milton Nascimento e mesmo de seus amigos e parceiros, mas também de todo um momento histórico que viveu o país indo de meados dos anos sessenta até meados dos oitenta, e que aqui no Brasil, foi embalado pela música e pela poesia desses caras, Indo da celebração da amizade e da vida até a luta e a resistência ante uma terrível ditadura militar que arrastou o país por vinte anos.

O gibi se chamou Histórias do Clube da Esquina, lançado pela Devir em 2011, teve um tremendo retorno de público e ainda hoje ecoa em vendas. Um gibi feito de fã para fãs. Contou ainda com cores do Omar Viñole. Na ocasião de seu lançamento, foi celebrado com uma sessão de autógrafos em Belo Horizonte, reduto da maioria dos membros desse honrado clube, em um local chamado Bar do Godofredo, que fica poucos metros acima da famosa esquina das Ruas Divinópolis com Paraisópolis no bairro de Santa Tereza, o bar pertencente então naquela época a um dos filhos do músico Beto Guedes, transpirava o clima do Clube da Esquina, em todos os sentidos, principalmente, claro, por trazer no centro de seu ambiente vários instrumentos musicais, para se criar bandas improvisadas para se tirar a curtir aquela sonzeira.

Foi nessa sessão de autógrafos que não só eu e o Omar assinamos uma quantidade enorme de livros, mas da mesma forma os outros artistas do clube, então você tinha em um canto, Fernando Brant autografando livros, no outro Marcio Borges, no outro Beto Guedes, Lô Borges proseando e autografando,  ou mesmo pessoas amigas e não menos importantes na história do movimento como Silvana Guedes, primeira esposa do Beto ou o Juvenal “Juva” Pereira, amigo querido e a pessoa que havia possibilitado tudo aquilo. Coroando essa grande noite, apareceu Toninho Horta, que além de genial músico, tem um coração enorme, junto com a antológica cantora Alaíde Costa, que participara do disco Clube da Esquina em um incomparável dueto com Milton em “Me deixa em paz”. Ambos estavam em BH para uma apresentação no Palácio das Artes na capital mineira, mas naquele dia, deram uma escapada para celebrar o lançamento. Enfim, uma grande noite. Uma grande celebração ao lançamento de um trabalho apaixonado, que foi e ainda é esse meu quadrinho, a história dessas pessoas e sua relevância a história da nossa música e da nossa arte. Mas antes de tudo uma celebração a vida e ao existir.

Recentemente Lô Borges, se foi. Setenta e três anos. Jovem para nossos atuais padrões, e muito mais jovem ainda, pela vitalidade e inspiração, estado que vivia constantemente. Com muita coisa a ser feito e sendo feita. Lô deixou um legado inestimável. Triste pensar em sua partida prematura. Mas a celebração que sua arte, sua música evoca é maior e será nela que vamos guiar nossa bússola. “O sol na cabeça” como nos diz a letra de seu clássico “Trem azul”. E todos nós seguimos sempre, de alguma forma, como as canções, como nossas histórias, como nossos quadrinhos, porque os sonhos… você sabe, os sonhos não envelhecem.

Sonhando com Paco Roca

Os sonhos são um dos fenômenos mais intrigantes da humanidade. A perturbadora clareza com que vivenciamos o incompreensível nos perturba e fascina. Testemunhamos o impossível acontecer e experimentamos irrealidades como se realidades fossem. Não é de espantar que eles tenham recebido atenção de praticamente todas as religiões, tornado-se objeto de especulação dos filósofos de diversas escolas, tema de estudo de médicos, cientistas e psicólogos.

Nem sempre os sonhos se prestam a explicação ou decifração, contudo. Se por vezes eles ajudam a elaborar emoções que conscientemente evitamos, por outras o inconcebível é a mais simples expressão do caos que resiste a qualquer tentativa de interpretação – científica, filosófica ou religiosa. São esses os que interessam aos artistas. Indiferentes a seus significados ou suas causas, eles podem apenas se lançar nas águas turbulentas dos sonhos e se deixar levar, saindo encharcados de matéria prima para suas obras.

Paco Roca – premiado quadrinista espanhol publicado no Brasil pela editora Devir –  é internacionalmente reconhecido por sua obra com forte teor histórico e político. Suas primeiras obras, no entanto, bebiam em abundância desse universo onírico, inspiradas pelo fantástico e pelo surreal – como mostra o lançamento do livro com suas histórias O Farol e O jogo lúgubre.

Em O Farol o jovem Francisco, oficial republicano fugindo das forças franquistas em direção à França, precisa se refugiar num farol desativado que encontra pelo caminho. Temeroso de seguir com a fuga e impossibilitado de voltar para a pátria que cai sob o general golpista, ele vai passando ali seus dias com Telmo, o velho faroleiro, com quem desenvolve um relacionamento profundo. O homem compartilha com ele sua experiência e seus sonhos, arrastando Francisco para seus planos que misturam fantasia e realidade, selando o destino do jovem oficial.

Mas se em O Farol os sonhos ditam o futuro, em O jogo lúgubre, publicado três anos antes, o leitor é convidado a compartilhar o pesadelo de Jonas viveu ao aceitar o trabalho como secretário do pintor surrealista Salvador Deseo numa isolada vila espanhola. Rapidamente o rapaz foi tragado para um universo delirante em que a fronteira entre sonho e realidade são tão borradas como a que separa delírio de sanidade.

Com seu talento Roca consegue alternar momentos de sutileza e candura com lances de crueza e vertigem, conduzindo o  leitor num passeio pelo qual é difícil dizer o que é ou não real, diferenciar o prático do poético, o lírico do trágico. E ele consegue traduzir em quadrinhos essa experiencia onírica sem parecer caricato ou exagero, provocando tanto sorrisos como arrepios.

Podemos tentar buscar significados ou explicações em cada uma das histórias, debatendo por horas seus significados e significantes. Ou podemos soltar as amarras teóricas e simplesmente desfrutar do prazer estético e emocional que elas proporcionam. Exatamente como em nossos sonhos mais marcantes.


Dica de leituras para essas férias

Chegando o recesso escolar e tenho uma dica para aquecer neste momento de friozinho. E há umas histórias maravilhosas que saiu pela Editora Devir, que necessito indicar para vocês.

Um tema que aprecio muito é história e memória, e nesse campo há um artista que um gênio para mim. Estou falando de Paco Roca, quadrinista espanhol que é um contador histórias (gráficas) como uma intensidade incomum no meio, em suas narrativas sempre está presente a história, muitas vidas vividas por ele ou memórias de entes queridos e familiares e com essas sabe muito bem conquistas o seu leitor.

A memória é a base subjetiva da experiência humana do passado, enquanto a história é a disciplina que busca a compreensão objetiva desse passado, utilizando a memória como fonte, mas não se limitando a ela.  Dentro do contexto histórico a memória fornece o material bruto, as narrativas e as experiências que a história utiliza como base. A história, por sua vez, ajuda a contextualizar, analisar e dar sentido às memórias, seja individual ou coletiva. Paco Roca sabe utilizar isso muito bem na construção de suas histórias gráficas, deixando elas de uma forma única, que transporta o leitor para dentro de suas histórias, fazendo esse conhecer e refletir sobre o fato histórico a partir da percepção de pessoas comuns sendo impactos por essas.

Nesse mês de aniversário da Editora Devir, que completa esse mês seus 38 anos, indico aqui alguns títulos do autor como leitura de férias escolares.

A primeira dica é a obra que me apresentou Paco Roca, ‘Regresso ao Éden’. Uma obra autobiográfica que traz as características acima mencionadas sobre memória e história. Com recursos gráficos formidáveis, equilibrando com uma narrativa emotiva, conta uma foto de família tirada em meados da década de 1940, durante a ditadura de Francisco Franco na Espanha, pós-guerra. Paco Roco retrata seu país neste período a partir de vidas humildes de seus familiares e suas memórias que, com dificuldades aos meios de subsistência e recorre ao mercado clandestino para poder se manter. Com tons acinzentados, Roca retrata a Espanha no período delicado de sua história, de miséria moral, cerceando as liberdades do seu povo. A obra é uma homenagem a vida de sua mãe e a todas as mulheres, que vivenciaram momentos cruéis e de atrocidades com a repressão e a miséria imposta por aquele regime político. Um alerta para que esse nunca volte.

Outra obra que não pode faltar do autor é ‘Acasos do Destino’, que traz as memórias de um exilado republicano espanhol, na França. Outra história emotiva que traz a história da companhia La Nueve, grupo composto em sua maioria de exilados espanhóis que lutaram na Guerra Civil Espanhola que defendiam uma República em seu país e anarquistas. Essa companhia, lutaram durante a libertação do Norte da África Francês e, mais tarde, participaram da Libertação da França, durante o domínio nazista no país. Até aquele momento em 1944, ninguém sabia da existência desses sobreviventes. Esses soldados exilados espanhóis lutaram de forma notável. Eram difíceis de comandar, mas tinham muita coragem e experiência em combate. O mérito da companhia não passou despercebido: a companhia participou do desfile da vitória, desfilaram sob a bandeira da Segunda República Espanhola e uma faixa gigante ostentando as mesmas cores foi usada por vários minutos durante a abertura do desfile; os soldados receberam diversas honrarias. Porém, nunca alcançaram o desejo, de ver uma Espanha livre da ditadura franquista.

Bom, vou finalizando por aqui. Me empolgo em falar sobre obras que trazem o tema memória e história. Mas algo quero lhe dizer, se está iniciando sua jornada de leitura na nona arte ou já é fã e cultuam a arte sequencial, conheça Paco Roca – um autor que é magnifico, que lhe faz emocionar com suas narrativas gráficas e vai além, sabe fazer, como ninguém, trazendo histórias para refletir o nosso presente – isso é um presente para leitores que buscam qualidade em suas leituras.

Fica a dica.


Devir: uma história de amigos!

A Devir é uma editora feita por amigos e para amigos. É assim que eu vejo essa incrível casa de publicação, distribuição, agito cultural e muito mais. Hoje em dia, com a saudável multiplicação de editoras, é muito fácil personalizá-las, associá-las a uma ou mais pessoa que encontramos regularmente em congressos, feiras, bienais e tantos eventos.

Porém… “antigamente”, no milênio passado, pelo menos para mim, um “reles mortal”, não era assim. Primeiro, porque a quantidade de editoras era bem menor. Segundo, porque os eventos na área dos quadrinhos (arte sequencial que eu respiro, trabalho e sempre foi meu interesse… portanto, me perdoem, amigos dos RPGs, card games e companhia, este é o foco destas mal traçadas linhas) oscilavam entre os raríssimos e inexistentes. O fato é que, não sei como, naqueles tempos sem internet e antes mesmo de lançarem publicações especializadas em HQs como o avassalador sucesso da revista Herói, eu descobri que uma banca na esquina da rua Bela Cintra com a alameda Lorena (sim, em Sampa!), havia uma banca chamada Tiragem Limitada que trazia, com regularidade, gibis originais em inglês.

Numa época em que os quadrinhos em geral eram extremamente acessíveis devido ao baixo preço resultante da impressão de dezenas de milhares de edições em formatinho, era muito fácil esgotar a pilha de leitura. Claro que o fato de haver muito menos títulos em banca também ajudava. Isso levava os mais interessados a procurar livrarias como a Siciliano para combater a crise de abstinência com publicações estrangeiras. No meu caso, revistas americanas da Marvel e DC. Só tinha um probleminha: nem sempre havia os mesmos títulos e, mesmo quando havia, era impossível conseguir uma sequência perfeita deles. Dois números consecutivos valiam ouro!

Enfim, só sei que, no segundo semestre de 1987, fui parar na Tiragem Limitada e confirmei que seus proprietários, o Carlos Mann (irmão do Jorge, da gibiteria Comix), a Paula e o Joel sempre tinham os gibis que eu quisesse regularmente, sem faltar nenhum número. Inclusive os anuais de cada título! Descobri que eu podia fazer uma assinatura dos mesmos e, melhor ainda, não precisaria esperar um mês para receber um pacote: toda semana chegavam novidades!

Com o tempo, descobri que não eram o Carlos, o Joel e a Paula que traziam os gibis. A Tiragem Limitada era, ao lado da Livraria Muito Prazer, na avenida São João, e da Alex Books, na Vila Mariana, um ponto de distribuição de “uns amigos malucos por quadrinhos” que conseguiam trazer os tão sonhados gibis americanos. Com mais um pouco de tempo, descobri que havia um dia certo para os pacotes da alegria chegarem: toda quinta à noite? Toda sexta à noite? Hoje, não lembro. É a idade…

O importante é que, no final da semana, um grupo cada vez maior de pessoas – a princípio, desconhecidos; com o tempo e muito bate-papo, amigos – se reunia em frente à Tiragem Limitada para esperar o Mauro (Martinez dos Prazeres) ou o Douglas (Quintas Reis) chegarem com uma caixa de papelão (depois duas. Depois três…) lotada de gibis. A nossa emoção era a mesma de estar na pré-estreia de um filme de impacto.

Parênteses: se ainda não deu para perceber, esta narrativa é 200% emocional. Ou seja, estou puxando pela memória, sem pesquisar no Google ou consultar antigas anotações. Hoje, eu sei que o Mauro e o Douglas não eram os únicos sócios-fundadores deste sucesso multinacional que conhecemos como Devir. Na época, eram “apenas” o Mauro e o Douglas, que rapidamente se tornaram nossos amigos, pois eles não se limitavam a trazer gibis: traziam gibis, longos bate-papos e muitas novidades.

Junto à amizade, a marca registrada da Devir era a organização. Desde o momento em que cheguei na Tiragem, vi que os “assinantes” de gibis gringos tinham seus nomes anotados junto à sua listinha de desejos mensais. Quando o Douglas ou o Mauro chegavam com os pacotes de revistas, rapidamente sacavam uma longa folha de formulário contínuo onde todos os nomes de clientes estavam em ordem alfabética, junto aos gibis da semana. Dentro das caixas de papelão, os pacotes de cada um vinham devidamente enfileirados também em ordem alfabética. Enfim, pra nós, fãs, era o suprassumo da organização. E funcionava. E a percepção daquela dupla (e seus sócios, mas eu não sabia que tinha mais gente!) de que as novidades dos bate-papos também precisavam chegar a quem não participava das pré-estreias semanais a levou a fazer um informativo (Devir News, talvez? Ah, memória! Tão pouco confiável). A princípio, em xerox preto e branco. Depois, algo maior e colorido. No fim das contas, o objetivo era nos dar uma chance de saber o que viria por aí para reservarmos com antecedência.

Em 1988, eu estava no segundo ano de Jornalismo da ECA/USP. Frequentar semanalmente as chegadas de gibis da Devir na Tiragem Limitada já era um hábito consolidado, e os bate-papos com os novos amigos Mauro, Douglas, Carlos, Paula e Joel, também. Junto a três amigos da faculdade – dois de Propaganda e um de Rádio & TV – resolvi fazer um fanzine (Pra ajudar quem nem imagina o que era um fanzine: pense num blog impresso… risos). Na reunião de pauta, eu rapidamente me propus a fazer duas entrevistas: a primeira com o Mauro e o Douglas, e a segunda com outra dupla de amigos, Helcio de Carvalho e Jotapê Martins, donos do recém-fundado (em 1986) Estúdio Artecômix, que depois virou Art & Comics e depois se tornou a Mythos Editora. Eu fiz as duas (longas) entrevistas, avancei e voltei várias vezes as fitas cassete para transcrever, datilografando (em algo chamado máquina de escrever. Computadores e teclados eram elementos da ficção científica) páginas e páginas com curiosidades e informações… pena que o fanzine nunca saiu!

Mas voltando: o Mauro e o Douglas toparam a entrevista na hora! Como bons amigos, nos reunimos por horas e horas no apartamento do Mauro, onde as caixas de papelão e as pilhas de gibi imperavam na sala – pelo menos, naquele dia. Envoltos em fumaça de cigarro (que eu odeio, confesso que essa parte foi uma pequena tortura) e regados a uísque (que eu adoro, ajudou bem a ignorar a fumaça!), conversamos sobre as origens da Devir. Eles me contaram que eram apenas um grupo de amigos que, assim como eu, queria ler com regularidade as publicações gringas. Contaram que descobriram que era possível importá-las com regularidade e que, ao se juntarem – no melhor espírito do que hoje conhecemos como compra coletiva, imortalizada aqui pelo Peixe Urbano, Groupon, ClickOn -, a união faria a força, ou melhor, baratearia imensamente os custos. É claro que boas ideias rapidamente se espalham. É claro que os amigos dos amigos souberam e pediram para participar. E é claro que os amigos originais, com visão de mercado, resolveram botar ordem na casa, organizar listas, escolher pontos de distribuição… e o resto é história.

Em 1989, passei a trabalhar como editor Marvel & DC na Abril Jovem que, curiosamente, numa cidade imensa como São Paulo, ficava justo numa das ruas que formavam a esquina da Tiragem Limitada: Bela Cintra, 299. O meu entretenimento virou profissão. E os gibis gringos que eu comprava da Devir, ou simplesmente folheava, passaram a ser fontes de consulta. O fato é que vários deles me ajudaram demais a contribuir, extremamente bem-informado, nas reuniões de programação do que a Abril lançaria em termos de quadrinhos pela minha redação. Um ótimo exemplo disso foi Odisseia Cósmica, que eu adquiri via Mauro & Douglas e depois pude propor numa reunião. Naqueles tempos, era extremamente difícil convencer a editora a lançar gibis em formato americano, já que encarecia demais o processo e o preço de capa… mas a minissérie de Jim Starlin e Mike Mignola foi uma das raras pérolas que viram a luz do dia naquela fase.

Os anos passaram e vim a encontrar meus amigos da Devir nos pequenos eventos que despontavam aos poucos. Na Gibiteca Henfil. Na Escola Panamericana de Artes. Na Unicamp. E em todos, sem exceção, o altíssimo Mauro me abraçava de lado e dizia, orgulhoso, para quem quisesse ouvir: “Este aqui foi o primeiro jornalista que me entrevistou!”. Mal sabia ele que o orgulho era todo meu! Ou sabia. Não é possível que eu não tenha comentado em alguma dessas vezes. Mas sabe como é a memória…

Bom, este texto é apenas um recorte no tempo, pertence a um período excelente da minha vida. Eu poderia continuar, comentar que depois outro grande amigo, o Leandro Luigi del Manto, após sua experiência na renovação da Editora Globo e na produção de gibis em sua própria editora, a Pandora Books, se juntou ao Mauro e ao Douglas para transformar, de fato, a Devir, de livraria e distribuidora, em também editora de quadrinhos… a casa de Frank Miller, Alan Moore, Garth Ennis e tantos outros. Mas isso fica para outro dia. Por enquanto, vou limitar a observar que a palavra amigo(s) aparece 17 vezes neste texto e que, no próximo dia 17, a Devir faz 38 anos.

Feliz aniversário, amigos da Devir!

A questão é…            

Há algum tempo, em um evento de quadrinhos aqui em São Paulo, encontrei com uma conhecida, ilustradora, com provavelmente mais de quarenta anos de carreira, uma quadrinista de mão cheia. Muito atuante nos anos oitenta e acredito que noventa também, produzindo razoavelmente bem para algumas editoras que então, naquele período, se dispunham a publicar material brasileiro. Porém, já há uns bons anos havia se retirado da produção de hq’s, não sei dizer se trabalhava ainda como ilustradora, acredito que não. Talvez tenha aposentado o pincel, justamente pela resposta a mim dada quando lhe perguntei se não se interessava em produzir material inédito, tendo em vista que hoje em dia temos um considerável número de editoras pequenas e médias que vem publicando material brasileiro. Ela, uma senhora de seus sessenta e poucos anos, tranquila e de fala pequena, olhou-me diretamente nos olhos com toda docilidade e me arrebatou: “Não, não… desenhar quadrinhos não é algo mais tão importante assim…”. O tempo parou, tudo em volta congelou, inclusive meu mental fez um pit stop em algum lugar que não ainda hoje não sei dizer onde era. Um segundo de silêncio, para depois refletir que, talvez, o questionamento não carecesse de acontecer, pois a resposta tranquilamente e educadamente dispensava necessidades. Eu não questionei, toda possibilidade de seguir adiante do ensejo terminou ali. A conversa rumou para outros campos.

Aquela resposta perdurou em minha cabeça durante um bom tempo. Não de modo obsessivo, mas como uma possível trilha interessante para, pelo menos, eu seguir dentro de minha estrada de quarenta anos “sérios” dentro dos quadrinhos brasileiros. Vale dizer que em 2024 comemorei essa efeméride publicando pela Editora Devir “As tentações de Santo Antão”, obra com roteiro e desenhos meus onde brincava de maneira “séria”, dizendo ser uma hq autobiográfica. O mito do santo, assim como a hq, conta seu duelo de décadas com Lúcifer, no deserto, na disputa de sua alma, hora alçada para as elevações divinas, hora jogada nos porões infernais. A luxúria, o desejo, a satisfação da carne e suas absolutas necessidades e o coração e alma em êxtase perante aquilo que realmente alimenta. Claro, “brincava” dizendo ser um quadrinho biográfico, não por me considerar uma figura boa, santa, mas pela dualidade eterna da carne e da alma estar em constante duelos. A minha pelo menos sim. E a sua?

O que eu preciso? Eu tenho fome de quê? O que pode calar um pouco essa necessidade? Que afinal, é a minha e de todos.

Quem acompanha minha carreira nesse tempo, sabe e pode exemplificar que fui das mulheres voluptuosas, carnudas de muitas hq’s, tendo seu apogeu na longa série da personagem Tianinha na primeira década dos anos dois mil, até obras grandiosas e talvez…  pretensiosas… ??…  como Yeshuah, “Cadernos de viagem”, “O santo sangue”, e recentemente a referida hq “As tentações de São Antão”. Sexo, santos e mantras? Mas ainda é na verdade, uma busca. É um olhar para todos os lados. É talvez mais que desenhar… ainda hoje é contar histórias. Mesmo que for em frente ao espelho.

Sou como tantos da época da frase que vivia ecoando: “Dá para viver de quadrinhos?”. Recentemente também me perguntaram numa live porque eu faço quadrinhos. A questão simples trouxe reflexões. Há a constatação que vive ecoando nas redes sociais, na boca amiúde dos analíticos de quadrinhos, que fazer e publicar hq’s não é fácil. O fato pesando sobre o sonho. Mas precisa disso? Em meados dos anos dois mil houve um tsunami de jovens autores que de lá para cá só vem aumentando e se renovando, mostrando um cenário prolífico. Para verificar isso basta comparecer em grandes eventos de cultura pop nas denominadas “alas/vale dos artistas”. Termo que me incomoda pois o campo dos artistas transcende as alas e os vales, os próprios eventos em si mostram. Algo que como observador lá atrás, de quem já vinha caminhando há tempos, pude perceber que essa caravana avançava sem lágrimas, sem desilusões, sem desesperanças, justamente com todo o oposto de muitos que para trás ficaram: “Nós queremos fazer!” Inerente ao espírito jovem, abandonando as lamúrias dos que não acreditavam no futuro… e claro… a questão que ainda hoje vejo correr nos eventos presenciais ou virtuais: “Qual o futuro dos quadrinhos no Brasil?” torna-se, com pedido de desculpas, aos que cultuam a questão, que dispensa análises. A coisa acontece aqui e agora. E se não está bem? Resiste com força e satisfação e afinal de contas, precisa mesmo estar bem? Olhe para o país e olhe para esse pequeno universo de gibis. O que te parece? Está ruim?

E aí, volto para minha amiga ilustradora e sua doce e tranquila resposta a minha questão: “…desenhar quadrinhos não é algo mais tão importante assim”. E não é mesmo. Para ela em sua amorosa e sábia aposentadoria, tudo certo. É muito vital, para toda essa geração que veio e ainda para os que vem vindo, com a força de quem abre seu caminho com arte e com querer. E para mim… ainda duelo com meus demônios no deserto, como Antão, buscando ainda entender qual a fome a ser saciada, do céu ou a do inferno… ou talvez, o que muito mais provável, as duas. Contando essa história olhando para o espelho.

Precisamos ter certeza de tudo?

Há quem diga que sim, mas as minhas reflexões na busca pela maturidade me fazem acreditar que não. Um pouco de dúvida faz bem, a incerteza nos convida a pensar melhor.

Esses dias fui ao cinema assistir ao filme Conclave, e o discurso oferecido pelo Decano Lawrence aos votantes falava sobre isso. Não tenho como reproduzir a fala dele, mas a mensagem era essa: ter certezas a respeito de tudo nos coloca num lugar de arrogância e as reflexões não têm espaço.

Acredito que maturidade é constante reflexão e compreensão de que podemos estar errados em várias situações. Pra mim, ser maduro significa ficar de boa com a necessidade de se reposicionar se você entender que tá numa direção errada. A certeza absoluta nos tira a razão mesmo que a gente pense já a ter.

Acho que já fui assim, mas percebi isso porque convivi com pessoas que tinham muitas certezas, e todas estavam erradas. Um exemplo? Bom, uma pessoa da minha convivência vivia se lamentando sobre as pessoas serem babacas com ela. Ela dizia: “Sou tão boa, eu não faço mal a ninguém. Mesmo assim as pessoas só me tratam mal”. Eu dizia: “Tem certeza que é tão boa assim?”, porque eu mesma já precisava lidar com inconvenientes causados por ela. Aliás, eu conhecia várias pessoas que tiveram experiências bem ruins em função dela.

Ela tava tão certa a respeito da bondade dela que não pensava duas vezes antes de tomar atitudes que pudessem trazer consequências ruins a outras pessoas. Na cabeça dela, ela se considera boa, significa que ela é incapaz de errar.

Refletir erros? Não, porque, na verdade, ela tinha certeza de que ela não merecia a injustiça de ser repelida por algumas pessoas.

Um pouco de dúvida é bom. Pelo menos eu a considero, em quantidades moderadas, essencial para ter equilíbrio e ser uma pessoa responsável.

Será que eu fui podre com alguém? Será que eu mereci ou contribuí para passar por essa situação ruim? Será que a culpa é do outro ou eu que não me ajudo? Será que eu não tenho que pedir desculpas?

Bom, tento fazer esse exercício diariamente, às vezes eu erro. E você?

Obrigada, Devir, pelo convite para participar dessa edição, chamem sempre! <3