Diário de Designer – Mistureba Mágica

Sempre fui fascinado pelo universo fantástico — magias, ingredientes malucos, criaturas excêntricas. É um tipo de encanto que nunca me abandonou, mesmo depois de virar adulto, pai de quatro filhos e um designer de jogos que ainda se pega rindo sozinho quando pensa em nomes como “raiz de mandrágora gripada” ou “besouro crocante”.

Foi desse lugar de imaginação e riso que nasceu o Mistureba Mágica. Um jogo para toda a família, onde memória, velocidade e excentricidades se encontram numa mesa cheia de gargalhadas, dedos batendo no caldeirão e feitiços certos (ou quase certos).

Uma pilha de ideias (e ingredientes)

O embrião do jogo começou lá atrás, em 2013. Na época, eu tinha uma obsessão esquisita: calculadoras HP. Sim, aquelas clássicas, que usavam memória de pilha. E não, não estou falando de bateria — mas de empilhamento mesmo. Números sendo colocados um em cima do outro, e as operações resolvendo as contas de trás pra frente.

Como todo nerd que se preze, aquilo me fascinava. E me deixou com uma pulga atrás da orelha: “Dá pra fazer um jogo com esse conceito de memória de pilha?” Anos depois, essa pergunta encontrou sua resposta na forma de uma pilha de ingredientes mágicos, onde tudo o que está por baixo pode (ou não) estar ali ainda — se você lembrar bem.

Do caderno à mesa (e de volta)

Os primeiros protótipos foram testados aqui em casa, com meus filhos mais velhos. Eram cartões em tamanho de cartas com adesivos colados em cima e uma regra que mudava a cada rodada. Ainda assim, eles adoraram. Começaram a pedir sempre “aquele protótipo dos bruxinhos”. Foi ali que percebi: o jogo tinha futuro!

A mecânica de memória em movimento — onde os ingredientes vão sendo empilhados e os jogadores precisam lembrar o que está ou não visível — foi um sucesso. Especialmente porque ela cria uma tensão divertida, que não pune quem erra, mas que valoriza quem arrisca. E arriscar é sempre mais divertido quando você está brincando.

Um protótipo de respeito (com uma ajudinha mágica)

Como eu sempre testo meus jogos com meus filhos, que são crianças, eu preciso que os protótipos sejam minimamente bonitinhos. Afinal, já basta obrigar os coitados a testarem minhas invenções — se o jogo for feio ainda por cima, aí não dá.

Foi então que chamei um grande amigo do peito, o ilustrador Nei Costa, pra me ajudar com as primeiras artes do protótipo. E olha… ficou lindo! Provavelmente um dos protótipos mais bonitos que já fiz. Ver o jogo com aquele visual caprichado ajudou demais na hora de apresentar a ideia, mas principalmente deixou meus filhos ainda mais empolgados pra jogar. E isso pra mim já vale tudo.

Cartas, caos e… cachorros

Um dos grandes momentos do desenvolvimento veio de uma conversa com os meus filhos. A carta do gato já existia (claro), mas eles sugeriram: “Ué, por que não tem um cachorro também?” Como temos gatos e cachorros em casa, a ideia fez todo o sentido. Pensamos juntos: e se o cachorro fosse o guardião da pilha? E assim nasceu uma das cartas extras do jogo.

Aliás, falando em filhos… eu sou horrível em memória. Em todos os playtests que fiz aqui em casa, eu perdi. E não é aquela derrota de “vou deixar a criança ganhar” — não, eu me esforço mesmo! Mas perco. Sempre. E talvez isso diga muito sobre o jogo também: ele é justo, é leve, e qualquer pessoa pode ganhar (exceto eu, aparentemente.)

Um nome pra chamar de nosso

Originalmente, o jogo se chamava Pequenos Alquimistas. Mas aí veio a CGE e anunciou um jogo infantil com o mesmo nome, que seria a versão infantil do consagrado Alquimistas. Foi um baque. Mas também uma oportunidade. Abri votação com meus filhos e os filhos de amigos, e deixei que eles escolhessem o novo nome. E que bom que eu fiz isso: Mistureba Mágica não só é mais divertido, como transmite bem melhor o espírito do jogo!

O sonho Devir

Ver esse jogo sendo publicado pela Devir é, sinceramente, a realização de um sonho antigo. Desde que comecei a criar jogos, sempre pensei: “Um dia, algum jogo meu sai pela Devir.” E agora, cá estamos.

Apresentei o protótipo pela primeira vez em versão virtual, o pessoal curtiu de cara. E mesmo depois de meses de trabalho, ajustes, ilustrações e desenvolvimento, a sensação é a mesma de lá do começo: um frio na barriga bom, como quando a gente prepara uma poção nova e não sabe o que vai sair.

Misture sem moderação

Mistereba Mágica é um convite pra brincar junto. É sobre lembrar, esquecer, rir, se atrapalhar — e jogar de novo. É pra crianças, adultos, famílias inteiras. É sobre magia, mas daquelas que acontecem em volta da mesa.

Espero que você se divirta jogando tanto quanto eu me diverti criando.
Thiago Queiroz